
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali
A minha glória é esta:
Criar desumanidade
Não acompanhar ninguém
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí Só vou por onde
Me levam meus próprios passos
Se ao que busco saber nenHum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
RedemOinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí
Se vim ao mundo, fOi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada
O mais que faço não vale nada
Como, pOis sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos
Ide Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios
Eu tenho a minha Loucura
Levanto-a, como um facho, a arder na nOite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções
Ninguém me peça definições
Ninguém me diga: "vem por aqui"
A minha vida é um vendaval que se soltou
É uma onda que se alevantou
É um átomo a mais que se animou
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí
(Claudia Monteiro)

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